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©Associação Portuguesa de Sociologia – Lisboa, 2012
Associação Portuguesa de Sociologia
PAP0618 - Como se escreve a vida? Regimes de socialização da classe trabalhadora no Portugal contemporâneo
Os modos de construção/representação do self e
do mundo são formados, não apenas na escola,
mas em diversos contextos sociais. No caso da
classe trabalhadora (operários e empregados e
executantes), no Portugal contemporâneo,
sabemos que os percursos escolares foram
geralmente curtos e/ou mal-sucedidos, mas
também que as suas disposições não constituem
a mera reprodução de estruturas familiares,
frequentemente tradicionais, rurais e
agrícolas. Como se formaram?
A comunicação apresenta resultados de uma
pesquisa de pós-doc, discutindo-se o processo
de socialização, à luz de cinquenta e quatro
histórias de vida produzidas por
trabalhadores, no decurso de processos de
reconhecimento, validação e certificação de
competências. Estas narrativas apontam para um
conjunto de momentos, relações e processos
relevantes na formação dos indivíduos,
guardados na memória devido ao seu importante
papel na definição e apresentação do self.
Partimos das conceptualizações de Elias,
Berger & Luckman e Bourdieu, discutindo
estudos recentes sobre a socialização,
produzidos por Wenger e Lave, Dubar, Lahire ou
Hotkinson e Goodson. Com recurso a teorias da
psicologia e neurociências, explora-se o papel
das emoções. Assim, apresenta-se uma noção de
socialização como processo de constituição dos
indivíduos e das sociedades, através das
interações, atividades e práticas sociais,
regulado por emoções, relações de poder e
projetos identitários-biográficos, numa
dialética entre organismos biológicos e
contextos socioculturais.
Seleccionámos uma amostra diversificada em
termos de idade, ocupação, sexo e
escolaridade, a partir dos inscritos em quatro
Centros Novas Oportunidades – situados em
contextos distintos (centro de Lisboa,
Barreiro, Torres Vedras e Entroncamento) –
que, após a nossa solicitação, nos enviaram
cópia dos seus trabalhos. Recorremos ao método
biográfico como forma de interpretar as cerca
de 5000 páginas de informação apurada (textos
e imagens).
Nesta comunicação, discutimos o modo como
estes trabalhadores organizam as suas
autobiografias, destacando padrões comuns,
enquanto marcadores culturais do modo como a
vida é elaborada e representada. Focaremos os
seguintes aspectos: (1) o nascimento e os
rasgos de bebé, enquanto mitos fundacionais
do “eu”; (2) a formação infantil, entre as
obrigações familiares e as brincadeiras entre
pares; (3) a escola como “experiência
estranha”, de abertura de horizontes e
interiorização de incapacidades; (4) o
trabalho, a religião, o serviço militar e o
desporto como principais comunidades
iniciáticas; (5) o casamento, a parentalidade
e a construção/aquisição da casa
como “fixadores” de identidades e
competências; (6) o desdobramento da vida
adulta em três cenários: o trabalho, a
família/casa e os hobbies/paixões pessoais.
Será equacionado como estas dimensões evoluem
no tempo, comparando três coortes: n. 1945-
1959; 1960-1974 e 1975-1990.
- ABRANTES, Pedro
PAP0499 - Sentimentos Intensos na Internet: o discurso amoroso da juventude
Esse trabalho se
propõe a analisar
sentimentos intensos
da juventude,
relativos ao campo
amoroso, no ambiente
das relações
virtuais. Tomamos
como âmbito de
investigação perfis
de jovens no site de
relacionamento
Orkut, escolhidos
através de
comunidades que
tratam ou se referem
a temas relativos ao
amor, namoro,
casamento e “fica”
(expressão
brasileira para
encontros efêmeros).
Indagamo-nos: que
tipo de emoção se
constitui no âmbito
dos agenciamentos
amorosos mediados
pela comunicação na
internet? Roland
Barthes, no prelúdio
de seus “Fragmentos
de um discurso
Amoroso” enuncia as
razões da escolha do
que denomina de um
“método dramático” –
a finalidade é de
ouvir o que existe
de inatual na voz
dos enamorados.
Segundo o autor,
"Dis-cursus" é,
originalmente, a
ação de correr para
todo o lado, são
idas e vindas,
démarches, intrigas.
Palavras que não
devem ser entendidas
no sentido retórico,
mas no sentido
ginástico ou
coreográfico de uma
maneira muito mais
viva, o gesto do
corpo captado na
ação. Interessa-nos
perceber como no
considerado espaço
“frio” da internet
se constituem
passionalidades,
intensidades
amorosas de gestos e
sentimentos
condensados em
palavras. A
intensidade
representa uma
“temperatura da
alma” e esboça outra
dimensão do tempo,
por encarnar,
simultaneamente,
acontecimento e
devir. E por
deslocarem-se no
espaço no espaço,
por não prescindirem
do corpo orgânico
para atuar como
suporte de
expressão, os afetos
virtuais, podem
seguir mais velozes
e sem fronteiras.
interessa-nos
identificar, através
do Orkut, emoções
intensas de amantes,
que se
auto-descrevem como
jovens em seus
"profiles",
moduladas por
dispositivos de
comunicação virtual.
São linhas de
construção
subjetivas que
ampliam, combinam,
misturam as
possibilidades do
corpo, da técnica
para que se torne
possível a
formulação de novos
territórios
existenciais. Não
mais se trata de
identificar os
sujeitos
unidimensionais,
catalisadores de
identidades com
contornos corporais
e psíquicos; o
desafio é de
reconhecer
enunciados e mídias
de um "eu"
potencializado por
outros tantos "eus"
atravessados por
sentimentos que
transpõem “real” e
“virtual”.
- DIÓGENES, Glória

Glória Diógenes nasceu na cidade do Rio de Janeiro. É professora doutora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará, Coordenadora do Laboratório das Juventudes (LAJUS), fundadora e ex-coordenadora do “Projeto Enxame – fazendo arte com gangues e galeras e ex-Secretária de Direitos Humanos da Prefeitura Municipal de Fortaleza. Realizou uma série de pesquisas (publicadas) sobre a criança e o adolescente: “Meninos e meninas de rua: cenário de Ambigüidades” (1993); “História de Vida de Meninos e Meninas de rua” (1994); “Criança Infeliz” - Exploração Sexual-Comercial de crianças e adolescentes em Fortaleza (1998); “Personagens em foco: esses meninos e meninas moradores de rua” (1998). Organizado por outros autores, tem artigos publicados nos seguintes livros: “Abalando os anos 90: funk e hip hop” (Rocco,1997); “Linguagens da Violência” (Rocco, 2000) e “Violência em Tempo de Globalização” (Hucitec, 1999). “Política e Afetividade” (EDUFBA, 2009); “A Juventude vai ao Cinema” (Autêntica, 2009), Juventude em Pauta: Políticas Públicas no Brasil (Petrópolis/Ação Educativa, 2011), Juventudes Contemporâneas: um mosaico de possibilidades (2011). Em 1998, como resultado de sua tese de doutorado, lança, pela Annablume, o livro “Cartografias da Cultura e da Violência - gangues, galeras e o movimento hip hop”, em 2003, o livro “Itinerários de Corpos Juvenis” (Annablume), em 2004, o livro “Cenas de uma Tecnologia Social: Botando Boneco” (Annablume/SESI/FIEC), em 2008, o livro “Os Sete Sentimentos Capitais: Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes” (Annablume) e autora do livro e, em 2010 “ViraVida – uma virada na vida de meninos e meninas no Brasil” (SESI). Junto com o Armazém Cultural organiza os Encontros de Twtteiros Culturais (ETC) em Fortaleza. No momento, pesquisa “Ciber-afectos e conexões em redes: intervenções juvenis na cidade”.