PAP1364 - A memória dos mortos na era digital: quando os mortos se encontram à distância de um clique.
A morte, ou mais precisamente, a consciência da morte, constitui fundamento essencial para o fundamento da vida. Se o homem não tivesse consciência da morte, se não concebesse a ideia da sua finitude, a vida (e logo a vida social também), perderiam muito do seu significado. Surgindo como forma do homem alcançar e atribuir alguma ordem e sentido à força caótica da natureza, a cultura humana toma, no que se refere às atitudes face à morte e à memória dos mortos, um forma especial.
É na certeza da sua morte física que o homem desenvolve as mais diversas formas culturais, simbólicas e materiais, que procuram impedir que um dia, sendo morto, os ainda vivos se esqueçam dele. É através da memória que o homem mantém presentes aqueles que já morreram, dando forma à concepção conteana de humanidade, que contemplava não só aqueles que estão vivos como aqueles que já morreram e todos os que hão-de vir.
Mas à semelhança do que acontece nas restantes esferas sociais, os regimes de memória vão sendo alterados. Numa longa história que se materializou em obeliscos, pilares, pirâmides, monumentos, túmulos, estátuas, jazigos, capelas, nos quais os seres humanos também quiseram geralmente inscrever palavras, informações e mensagens, e que o mundo moderno acrescentou técnicas de comunicação como os jornais, notícias e anúncios, assiste-se agora a uma outra sequência estimulada pelas novas tecnologias da informação. Estas têm feito irromper novos rituais, formas cerimoniais, códigos de rememoração e inclusivamente modalidades de reunião dos mortos no mundo dos vivos através do manto da “tele-presença” e de um impedimento aparente do corte da comunicação.
No mundo virtual, através das redes sociais, memoriais on-line, blogs e cemitérios virtuais, os novos suportes de memória suscitam questões variadas, uma vez que permitem, como nenhum outro, a perpetuação da ilusão da presença daquele que já morreu. Através de dispositivos de imagem, movimento e som, através da manutenção e dinamização das suas páginas no facebook, o encontro com os mortos faz-se, já não por meio da tradicional visita aos cemitérios (muitos dos corpos são hoje cremados e as cinzas volatilizadas), mas no espaço virtual, através do écran do computador.
- MENDES, Ana Celeste

Ana Celeste Mendes é licenciada em Comunicação Social e Cultural pela
Universidade Católica Portuguesa, Pós Graduada em Jornalismo pelo
ISCTE, Mestre em Comunicação Cultura e Tecnologias da Informação pelo
ISCTE e Doutoranda em Sociologia no CIES-ISCTE. Bolseira da FCT,
tem-se dedicado, sobretudo, ao estudo das questões sociais ligadas à
morte e ao morrer na sociedade contemporânea. Lecciona Sociologia da
Saúde da Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa.
PAP0253 - Tendências e diferenças na mortalidade da população idosa em Portugal: uma abordagem sub-nacional
Em Portugal, e à semelhança do que se verifica
na maioria dos países ocidentais, a população
idosa tem vindo a aumentar. A pirâmide de
idades da população portuguesa passou a
apresentar um estreitamento na base,
acompanhado por um alargamento no topo, forma
que caracteriza uma população envelhecida.
Mas os idosos não se distribuem da mesma forma
pelo território nacional. Existem indícios de
que a população portuguesa está a envelhecer
de forma desigual nas várias regiões do país.
A partir dos dados disponíveis no Eurostat
(taxa bruta de mortalidade, TBM, por 100 mil
habitantes), estudámos as tendências de
mortalidade e variações associadas no período
de 1994 a 2006, entre a população idosa
portuguesa, por sexo, grupo etário e
principais causas de morte (segundo a
International Statistical Classification of
Diseases and Related Health Problems, ICD),
procurando estabelecer diferenças regionais.
Estas ocorrem apenas pontualmente, por sexo,
mas sobretudo entre o grupo etário dos 65 aos
69 anos e o dos 85 ou mais anos, no que se
refere às principais causas de morte. Das seis
causas estudadas, três são dominantes entre a
população idosa: doenças do sistema
circulatório, neoplasias e doenças do sistema
respiratório. Em termos de variação, os óbitos
por doenças endócrinas sofrem, no período em
análise, aumentos acentuados em todo o país,
enquanto que os relativos às doenças do
sistema circulatório tendem a diminuir.
Globalmente, a região Centro apresenta as
maiores diferenças, no que se refere ao
afastamento entre as duas principais causas de
morte e as restantes. Por sua vez, os Açores e
a Madeira apresentam, em certos aspectos,
padrões, quer de tendência das taxas brutas de
mortalidade, quer da sua variação, por sexo,
grupo etário e causa, diferentes dos
observáveis nas regiões do continente, não
podendo considerar-se, no entanto, estas
regiões homogéneas entre si.
Este estudo procura assim fazer um retrato do
país, com um nível de desagregação sub-
nacional. Os resultados relativos às
tendências de mortalidade são apresentados, em
função do sexo, grupo etário e causas de morte.
REFERÊNCIAS PRINCIPAIS
-CANUDAS-ROMO, V. et al., Mortality changes in
the Iberian Península in the last decades of
the twentieth century, Population-E, 63(2),
2008, pp. 319-344.
-GRUNDY, E., Demography and Gerontology:
Mortality Trends Among the Oldest Old, Age and
Ageing, 17, 1997, pp. 713-725.
-INE, Projecções de População Residente,
Portugal e Nuts III, 2000-2050, Instituto
Nacional de Estatística, 2005.
http://www.ine.pt [extraído em 4-3-2009]
-JANSSEN, F., Cohort patterns in mortality
trends among the elderly in seven European
countries, 1950-99, International Journal of
Epidemiology, 2005, 34, pp. 1149-1159.
http://ije.oxfordjournals.org/cgi/reprint/34/5/
1149 [extraído em 25-02-09].
- LAGARTO, Sandra

- MENDES, Maria Filomena

Sandra Lagarto licenciou-se em Engenharia Biofísica e fez também o mestrado em Ecologia Humana na Universidade de Évora. Tem tido um percurso profissional bastante diversificado passando pelo ensino/formação profissional na área de educação ambiental e pela colaboração com gabinetes públicos e privados em projectos de planeamento regional. Há cerca de cinco anos licenciou-se em Matemática Aplicada (especialização em Estatística) e começou a trabalhar com dados demográficos. Está actualmente a concluir a tese de doutoramento, em Matemática, sobre modelos estocásticos de mortalidade.
Maria Filomena Mendes, licenciada em Economia e doutorada em Sociologia na especialidade de Demografia pela Universidade de Évora é Professora Associada no Departamento de Sociologia desta Universidade.
Publicou recentemente, entre outras, as seguintes publicações:
2010, “A diferença de esperança de vida entre homens e mulheres: Portugal de 1940 a 2007” (com I. T. de Oliveira) in Análise Social, Vol. XLV (1.º), 2010 (n.º 194), 115-138.
2010, “Perfil dos imigrantes em Portugal: dos países de origem às regiões de destino” (com C. Rego, J. R. dos Santos e M. G. Magalhães), in Revista Portuguesa de Estudos Regionais, RPER, nº 24-2º Quadrimestre, artigo 7, APDR, Coimbra, pp. 17-39.
PAP0525 - Viver até morrer: que modelos organizativos inventar?
A transformação das estruturas da população
segundo a idade tem fortes implicações na
organização da vida colectiva.
Nas sociedades em que o trabalho é factor
crucial de integração social, a passagem à
condição social de “idoso” representa, para
muitos, a entrada num processo de
vulnerabilidade social ou, até, de exclusão.
A sociedade portuguesa é um caso de evolução
contraditória. A progressiva integração
económica dos reformados não impediu que
grande parte da população envelhecida fosse
remetida para condições objectivas de
existência que os expõem a diversas formas de
marginalização. São de destacar a pobreza, a
perda dos laços sociais e de significado da
existência, assim como do sentido da utilidade
social.
Um importante contingente dos activos
envelhecidos que exerceram a sua actividade
profissional com baixos níveis remuneratórios
corre o risco de não contar com redes mínimas
de protecção social.
A nossa investigação propõe-se analisar as
repostas sociais existentes e conceber e
planear intervenções que diminuam o risco de
pobreza e evitem que a reforma seja vivida
como morte social.
As profundas alterações que afectam as
estruturas familiares têm um impacto directo
sobre as relações de poder entre as gerações,
nomeadamente sobre o conteúdo e intensidade
das trocas entre filhos e pais e sobre a
definição das suas obrigações recíprocas.
Grande parte das tarefas e cuidados
tradicionalmente assumidos pela família, e que
contribuíam para a sua coesão, está a ser
remetida para instituições e profissionais
especializados. Esta mudança, que secundariza
os mecanismos de resolução de problemas na
base de trocas e negociações directas quer no
quadro da família, quer na colectividade de
vizinhança, está na base do isolamento social
e da solidão, bem como do fechamento da
identidade no passado.
Neste quadro, a qualidade da protecção social
dos idosos é crucial para preservar a sua
dignidade social e para que possam viver até
morrer. O contributo das organizações
produtoras de serviços para criar redes de
relacionamento social é crucial para prevenir
ou corrigir o isolamento e a solidão,
substituindo ou complementando os laços
primários.
A nossa investigação pretende, pois, conceber
modelos organizacionais compatíveis com a
valorização simbólica, a intensificação das
relações sociais, a descoberta de interesses e
o envolvimento na prestação de serviços à
colectividade de modo a permanecerem
integrados na vida social, demonstrando a sua
utilidade social.
- MAIA, Berta
- ROCHA, Maria Lúcia
- ALMEIDA, Maria Sidalina

- GROS, Marielle
Nome: Maria Sidalina Almeida
Afiliação institucional: Instituto Superior de Serviço Social do Porto
Área de formação - licenciatura em serviço social; mestrado em serviço social e política social e doutoramento em ciências da educação.
Interesses de investigação: diversos temas no campo da gerontologia social; transição dos jovens para a vida adulta.